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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Os caçadores do livro perdido!

Há alguns anos atrás, ouvi a mensagem de um pastor amigo e muito querido que nunca mais esqueci. Estávamos no mês de outubro e comemorávamos a Reforma Protestante, tema das aulas de História na escola, tema de debates desde o momento em que começou a ser implantada na Europa essa reforma da igreja no intuito de combater aquilo em que se tinha tornado a palavra de Deus: era preciso pagar pelos pecados, o que tem o bonito (ou feio!) nome de indulgências.
Algumas igrejas do século XVI tinham uma espécie de quadroem que se colocavam os preços de cada pecado e como pagá-los... A igreja apresentada a nós pelo historiador que escreve o livro de Atos dos Apóstolos há muito não existia...: aquela em que todo mundo tinha tudo em comum e se ajudava mutuamente. Isso não passava de um sonho distante. Aliás, no século XVI não se tinha a Bíblia na língua própria do lugar, apenas em latim. E quem não sabia latim, não entendia o que ouvia, muito menos lia. E assim caminhou a humanidade.
Aquele pastor querido foi até o texto de 2 Reis 22, sobre o que fez Josias, um dos reis-modelo na história de Israel: incomodado com o aspecto da Casa de Deus, o templo, pediu ao escrivão, chamado Safã, para que dissesse ao sumo sacerdote Hilquias que abrisse o cofre (que ficava no templo), contasse o dinheiro e contratasse gente da melhor qualidade na época para reformar o templo e reparar os estragos causados até então. Hilquias contou, deu o dinheiro na mão dos mestres de obra e o texto traz um detalhe interessantíssimo: Porém não se pediu conta do dinheiro que se lhes entregara nas mãos, porquanto procediam com fidelidade (2 Reis 22,7).
Fidelidade.
Mas a história não terminou aí: quando Hilquias foi abrir o cofre, no meio do dinheiro, o que ele achou: o livro da Lei – o texto sagrado da época, que os estudiosos dizem ser os capítulos 12 a 26 do Deuteronômio, texto importantíssimo sobre justiça social e aplicação de leis para que a economia do povo ficasse equilibrada, sem gente rica demais, e sem gente pobre demais. Foi Safã quem leu o texto (e que, como era escrivão, deveria ler muito bem) e foi correndo contar tudo que acontecera ao rei Josias. Resultado: Safã leu o texto na frente de Josias, e o rei ficou pasmo com todos os erros que estavam acontecendo, pois o texto sagrado tinha sumido, ninguém nunca mais ouviu falar dele, e a coisada justiça social não deveria estar indo muito bem.
Josias, ao ouvir, rasgou as vestes: isso era um modo de representar o arrependimento. Mas ele não parou por aí (2 Reis 23). Reuniu todo mundo, gente rica, gente pobre, sacerdotes, profetas, trabalhadores, e leu as palavras do texto do livro da Lei na frente dessa gente toda. Colocou-se diante do povo, pediu que eles voltassem atrás nos seus erros, assim como ele, Josias, faria a partir de agora. E o texto bíblico diz: fizeram aliança com Deus, todo o povo!”. Depois disso, vão sendo contadas todas as atitudes justas e igualitárias de Josias e, antes de falar da sua morte, vem o elogio do narrador: E antes dele não houve rei semelhante, que se convertesse ao Senhor com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças, conforme toda a lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro tal (2 Reis 23,25).
Justiça.
O que isso tem a ver com a Reforma Protestante?
A memória não me falha e lembro direitinho o que meu pastor amigo disse naquele dia na mensagem: o livro da Lei – o texto sagrado – estava perdido dentro da casa de Deus. Ele estava sumido, enfiado no cofre no meio do dinheiro do povo, que deveria voltar para o povo como beneficio em cuidado, em zelo, em obras e em justiça social. Esse é o ensinamento que Josias ouviu do texto do Deuteronômio.
Em 31 de outubro de 1517, um monge chamado Martinho Lutero percebeu que o livro sagrado estava de novo perdido dentro da casa de Deus. Tinha sumido. Tinha sido engolido pelo dinheiro suado do povo que pecava e que pagava por cada um de seus pecados. Dinheiro que iria se multiplicar sempre, pois eu e você e aquele povo nunca deixaremos de ser pecadores. Nem um diazinho sequer. Lutero leu no Novo Testamento, em Romanos 1,16 que a justiça de Deus se manifesta pela fé, e que dessa fé o justo viverá, verdade que também consta lá atrás, no Antigo Testamento, em Habacuque 2,4. E Lutero percebeu que nossos pecados são perdoados quando os confessamos e neste momento exato da confissão nos tornamos justos diante de Deus, por meio da fé que temos nele. Fé que nos move a dizer de verdade quem somos. Fé que nos faz acreditar que Deus nos ama e nos perdoa mesmo sendo quem somos!
Quase quinhentos anos se passaram desde que Lutero afixou na igreja de Wittenberg, na Alemanha, noventa e cinco teses sobre esse pagar pelos pecadose eu estou aqui escrevendo uma coluna sobre a Reforma Protestante. Confesso que escrevo com uma pontinha de tristeza que vai se transformado numa mancha enorme que nenhum mata-borrão possa dar jeito. A igreja que protestou hoje não protesta mais! Pelo menos sua grande maioria. O povo que pagou pelos pecados no passado, inocente e sem saber da justiça pela fé, hoje paga para receber bênçãos que não precisam de pagamento, mas só de justiça, só de trabalho, só de fé.  
Já li vários artigos e colunas sobre uma Reforma da Reforma, um movimento que precisa acontecer nas igrejas ditas reformadas, para se voltar bem lá atrás, de novo à igreja de Atos dos Apóstolos, de novo ao princípio em que não havia separação. Os conflitos aconteciam, mas se resolviam com a autoridade de gente que tinha, acima de tudo, amor ao ensino da palavra de Deus, amor à justiça, amor a Deus, amor ao próximo. Amor ao livro. Não-amor ao cofre.
Busca.
Precisamos reencontrar o livro, perdido, sumido. Ouvi-lo. Lê-lo. Entendê-lo. Fazê-lo acontecer. Fazê-lo mudar nossas práticas nada reformadas, tampouco reformistas. Quem sabe ele – o livro sagrado – está enfiado no meio do dinheiro do cofre?... Que o rei Josias e o Deus que ele tanto amava nos convoquem para sermos os caçadores do livro perdido. Quem se habilita?


No Deus a quem eu permito reformar minha vida, 

19 comentários:

  1. Nilson Tarcitano: Muito bom! Temos que procurar novamente este livro perdido ou talvez escondido e levá-lo para o púlpito das igrejas. Com toda certeza teremos uma nova reforma onde as Igrejas irão triunfar pregando o amor de Deus e recebendo Dele toda a ajuda que estamos precisando por meio da fé.

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    1. Vamos em frente!! Oremos e busquemos o livro, Nilson!!!

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  2. Suas palavras descrevem uma verdade incontestável: a falta de conhecimento destrói o povo (Os 4.6)! Igualmente, Jesus também advertiu: "Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.31-32). Que o amor puro, sem interesses, por Ele e pela Sua palavra nos impulsione a cada dia!

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    1. Amém!
      E que levemos o conhecimento: é responsabilidade nossa, Guilherme Diogo!

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  3. O "Livro" que se perdeu nos cofres. Triste... Real.

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  4. O "Livro" que se perdeu nos cofres. Triste... Real.

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  5. Estamos encontrando o livro perdido através dos nossos estudos!!! Que o Senhor possa abrir nossas mentes e corações!

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    1. Ah, que lindo!!!!
      Estamos sim!!!! Graças a Deus!!!

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  6. Josias... Lutero...
    Porque não John Wesley e tantos outros! O pior que encontrar bons exemplos no passado é fácil, mas no momento presente, quase impossível!
    Os reformadores são poucos e estão escondidos, não dão a cara para bater!
    Na maioria não somos reformados!
    Somos cópias, somos iguais. Somos o substrato, aquilo que restou de uma transformação! Precisamos urgentemente encontrar o livro!
    Que Deus nos abençoe!

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    1. Encontremos, Marcinho, e nos reformemos também para reformarmos!

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  7. Vamos em buca do livro perdido ou será que ele foi premeditadamente escondido? Eia, vamos nós!!!

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  8. "Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est". Linda reflexão! Hoje, infelizmente, conseguiram fazer pior do que o passado! Não esconderam o livro! Ele está na mãos e ao alcance de todos. Mas, hoje, usam o livro contra os reais propósitos do livro. No idioma do povo (não em latim) justificam, por meio do livro, o gesso hermenêutico e sacralização a interpretação que oprime.

    Repito, bela reflexão... Precisamos voltar à caça do livro, à caça da inspiração do livro.

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    1. Voltemos! À caça do livro de Eli! De Silvio, de Alessandra, de Dani, de Marcinho, de Monica, de Guilherme, de Nilson, de gente boa, simples e honesta que tem fé na vida!

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  9. Inscrições abertas para os que desejam ir em busca do livro perdido! Estou disposta a ser uma caçadora do livro perdido. Amei a postagem Alessandra Viegas.

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    1. Excelente!!!
      Vamos juntas, então?
      Deus nos guia nessa jornada!

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